Trekking ao Fitz Roy: todas as formas de vivê-lo em El Chaltén

Trekking ao Fitz Roy: todas as formas de vivê-lo em El Chaltén

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PatagoniaTravelers
15 de junho de 2026 · 9 min

O Fitz Roy pode ser visto do vilarejo, mas só se conhece de perto, a pé. Contamos como chegar à Laguna de los Tres, o que observar no caminho e o que é preciso para ir ainda mais alto.

Trekking ao Fitz Roy: o guia completo para vivê-lo em El Chaltén

A primeira vez que cheguei ao Fitz Roy, há mais de quinze anos, o tempo estava nublado. Não consegui ver nenhum pico do maciço. Aconteceu comigo o mesmo que acontece com a maioria das pessoas: as nuvens quase sempre encobrem o cume do Fitz Roy. Por isso os tehuelches o chamaram de “Chaltén”, que na língua aonikenk significa “montanha que fuma”. Para eles, aquela nuvem constante era a fumaça de um vulcão.

Naquela viagem, El Chaltén ainda era um povoado pequeno e pouco habitado. Chegamos bem na hora do almoço. O único posto de combustível da cidade estava fechado, e tivemos que esperar até depois da sesta para continuar a viagem.

O clima na Patagônia muda rapidamente, e naquela tarde mudou para melhor. Quando saímos para caminhar, o céu já havia se aberto. Foi então que o vi pela primeira vez: toda a cadeia do Fitz Roy, com suas agulhas de granito recortadas contra um céu limpo, como se as nuvens da manhã tivessem sido apenas um ensaio.

O monte Fitz Roy (ou Chaltén, 3.405 metros) domina o Parque Nacional Los Glaciares, em El Chaltén, na Patagônia argentina. Há uma versão para cada visitante: desde mirantes de 2 a 4 horas, como Laguna Capri ou Chorrillo del Salto, passando pelo clássico trekking de 8 a 10 horas até Laguna de los Tres — 22 quilômetros ida e volta, de dificuldade média a alta —, até o desvio para Laguna Sucia para quem quer ir um pouco mais longe e, para os mais experientes, o cume, alcançado pela primeira vez apenas em 1952.

O essencial

  • Todas as trilhas começam no final da Avenida San Martín, a 15–20 minutos a pé de qualquer hospedagem em El Chaltén.
  • As caminhadas curtas duram entre 2 e 4 horas até os mirantes mais acessíveis (Laguna Capri e Chorrillo del Salto).
  • A caminhada completa até Laguna de los Tres tem cerca de 22 quilômetros ida e volta e exige entre 8 e 10 horas.
  • A dificuldade também varia: baixa a média nos mirantes, média a alta em Laguna de los Tres — principalmente por causa do último quilômetro sobre uma morena com 400 metros de desnível — e técnica para quem pretende alcançar o cume.
  • A melhor época vai de meados de novembro a meados de março, sendo dezembro e janeiro os meses com os dias mais longos.
  • Desde outubro de 2024, o acesso a Laguna de los Tres exige o pagamento da taxa de entrada do Parque Nacional Los Glaciares, que deve ser paga online antes da saída. Vale a pena confirmar o valor atualizado antes da viagem.

Como chegar a Laguna de los Tres e à cadeia do Fitz Roy

O ponto de partida fica no final da Avenida San Martín, na extremidade norte de El Chaltén, exatamente onde o povoado termina e começa o Parque Nacional Los Glaciares. É possível chegar caminhando a partir de qualquer hospedagem em 15 a 20 minutos, sem necessidade de traslado ou excursão.

Para chegar a El Chaltén a partir de outras regiões, o aeroporto mais próximo é o de El Calafate, a cerca de 215 quilômetros (aproximadamente três horas de carro ou ônibus pela Rota Nacional 40). As empresas CalTur, Chaltén Travel e Taqsa operam esse trajeto várias vezes ao dia durante a alta temporada, e entre dezembro e março também existe um serviço direto de ônibus desde Bariloche.

Dica: comece o mais cedo possível, de preferência antes do nascer do sol. Não apenas pela luz espetacular sobre as agulhas de granito do Fitz Roy, mas porque o vento patagônico costuma se intensificar depois do meio-dia, justamente no trecho final da trilha, que é o mais exposto e exigente.

O percurso: da floresta de lenga à parede de granito

A trilha até Laguna de los Tres pode ser dividida em três partes bem distintas, cada uma com sua própria paisagem e seus próprios desafios.

Do povoado à floresta de lenga

Os primeiros quilômetros são uma caminhada agradável, em subida suave, através de florestas de lenga — uma árvore nativa da Patagônia que no outono ganha tons vermelhos e amarelos. A trilha passa perto da Laguna Capri, um excelente primeiro mirante do Fitz Roy, com seu reflexo na água quando não há vento.

Um dado curioso: a cadeia do Fitz Roy possui uma cor diferente da dos morros ao redor. Ela é formada por granito, uma rocha de origem vulcânica que ficou exposta quando a erosão removeu as rochas sedimentares que a cobriam. Por isso o Fitz Roy parece mais claro e mais afiado do que seus vizinhos.

O último quilômetro: a morena que põe as pernas à prova

Depois de cerca de duas horas de caminhada tranquila, a trilha muda completamente. Começa a subida final até Laguna de los Tres: um quilômetro de pedras soltas sobre uma morena — o acúmulo de rochas deixado por uma geleira ao recuar — com aproximadamente 400 metros de desnível.

É o trecho que justifica a fama de “dificuldade média-alta” do trekking ao Fitz Roy. Vale a pena seguir devagar, usar as mãos para se apoiar quando necessário e fazer pequenas pausas. A recompensa surge de repente: no topo da morena aparece Laguna de los Tres, com o Fitz Roy rasgando o horizonte logo atrás.

O nome da lagoa não é por acaso. Foi dado pela expedição francesa que realizou a primeira ascensão ao Fitz Roy em 1952 e faz referência aos três principais cumes visíveis atrás da água: o próprio Fitz Roy e as agulhas Poincenot e Saint-Exupéry. Poincenot, em particular, recebeu esse nome em homenagem a um alpinista da mesma expedição que morreu ao atravessar um rio durante a viagem.

Ali você entende por que os tehuelches acreditavam que o Fitz Roy era um vulcão: a montanha parece respirar.

Laguna Sucia: a vista que quase ninguém conhece

Da margem de Laguna de los Tres, uma pequena subida de cerca de dez minutos à esquerda leva a um mirante sobre Laguna Sucia. Apesar do nome, ela não tem nada de “suja”: trata-se de um lago glacial de um intenso tom turquesa, alimentado pelo Glaciar Río Blanco, que desce em pequenas cascatas desde as montanhas acima.

O nome vem da turbidez da água. Como toda lagoa de origem glacial, Laguna Sucia recebe sedimentos extremamente finos — conhecidos como “farinha de rocha” — produzidos pelo desgaste da geleira e transportados pelo degelo. Essas partículas em suspensão são justamente as responsáveis pela impressionante cor turquesa, mas também pela aparência turva da água.

A trilha até Laguna Sucia não é sinalizada e, em alguns trechos, atravessa terreno rochoso sem marcas claras. Por isso, é recomendável visitá-la apenas com boa visibilidade e tempo suficiente.

Para quem busca algo mais: o cume do Fitz Roy

Laguna de los Tres marca o final da trilha para a maioria dos visitantes, mas não o final da montanha. Acima da morena, o Fitz Roy continua subindo quase 2.300 metros, formando uma gigantesca parede de granito que só foi conquistada pela primeira vez em 1952 por uma expedição francesa liderada por Lionel Terray e Guido Magnone.

Hoje, escalar até o cume do Fitz Roy continua sendo um projeto sério de montanhismo: envolve vários dias de atividade, acampamentos de altitude como Río Blanco ou Paso Superior, bivacs — abrigos mínimos de montanha, às vezes simples cavernas de neve — e janelas de bom tempo que raramente duram mais de 24 horas.

As rotas Franco-Argentina e Supercanaleta estão entre as mais conhecidas, e ambas exigem guia de montanha certificado e experiência prévia em escalada em rocha e gelo.

Há ainda outro detalhe que conecta esta montanha ao mundo inteiro: o logotipo da marca de roupas outdoor Patagonia é a silhueta do Fitz Roy, desenhada após seu fundador, Yvon Chouinard, escalar a montanha em 1968.

Informações práticas para o trekking ao Fitz Roy

Temporada recomendada: de meados de novembro a meados de março.

O que levar

  • Roupas em camadas
  • Jaqueta impermeável corta-vento
  • Protetor solar
  • Gorro ou boné
  • Água e comida para o dia inteiro
  • Dinheiro em espécie

O que não levar

  • Calçados sem suporte para os tornozelos
  • Roupas 100% algodão (não aquecem quando molhadas)

Sinal de celular

  • Inexistente ou muito limitado na maior parte da trilha

Se o seu plano for mais curto, os mirantes de Laguna Capri e Chorrillo del Salto podem ser visitados em 2 a 4 horas, com dificuldade baixa a média. Se quiser estender a aventura, Laguna Sucia acrescenta aproximadamente uma hora ao percurso. Já uma tentativa de alcançar o cume do Fitz Roy é medida em dias, não em horas.

Como organizar sua visita ao Fitz Roy

Por conta própria (a opção mais escolhida)

A trilha até Laguna de los Tres é muito bem sinalizada e não exige guia. Basta pagar a entrada do Parque Nacional Los Glaciares e levar algum dinheiro em espécie como reserva, já que pagamentos com cartão podem falhar ocasionalmente.

Com traslado até Río Eléctrico

Para quem prefere um circuito diferente ou dispõe de menos tempo, há micro-ônibus que saem de El Chaltén até a ponte de Río Eléctrico, onde começa outro acesso à cadeia do Fitz Roy. No caminho, é possível visitar o mirante do Glaciar Piedras Blancas.

Com guia de montanha, para alcançar o cume

Se o objetivo é escalar o Fitz Roy e não apenas contemplá-lo, existem operadores locais especializados que organizam expedições de 4 a 5 dias com guias certificados pela IFMGA, incluindo toda a logística de acampamentos e bivacs em altitude.

Onde se hospedar

No povoado, as hospedarias de montanha com vista direta para a cadeia do Fitz Roy — sem grandes redes internacionais — são a opção mais confortável. Para uma experiência diferente, o Refugio Piedra del Fraile, no Vale do Río Eléctrico, e o refúgio da Estancia Los Huemules, em frente ao Glaciar Cagliero, oferecem estadias cheias de personalidade, longe das áreas mais movimentadas.

Para quem deseja ver o nascer do sol sobre o Fitz Roy, o Campamento Poincenot — dentro do parque, ao longo da trilha para Laguna de los Tres — permite acampar gratuitamente.

Perguntas frequentes sobre o trekking ao Fitz Roy

O trekking ao Fitz Roy é difícil?

A trilha até Laguna de los Tres tem dificuldade média a alta. Os primeiros 8 quilômetros são relativamente tranquilos, mas o último quilômetro sobe cerca de 400 metros sobre pedras soltas e exige bom preparo físico.

É necessário contratar um guia para ir até Laguna de los Tres?

Não. A trilha para o Fitz Roy é muito bem sinalizada e está entre as mais percorridas de El Chaltén durante a temporada. Por isso, a maioria dos visitantes a realiza por conta própria, sem contratar excursões.

Quanto tempo dura a caminhada até Laguna de los Tres?

Entre 8 e 10 horas de ida e volta a partir de El Chaltén, sem contar o tempo que você permanecer na lagoa. Se quiser apenas um mirante do Fitz Roy, as opções mais curtas podem ser feitas em 2 a 4 horas.

É possível fazer a trilha com crianças?

Os mirantes próximos ao povoado, como Laguna Capri e Chorrillo del Salto, são adequados para famílias. Já o trekking completo até Laguna de los Tres, devido à distância e ao trecho final sobre a morena, é mais exigente e deve ser avaliado de acordo com a idade e o preparo físico de cada criança.

Há sinal de celular na trilha do Fitz Roy?

Não, ou muito pouco. É recomendável baixar o mapa da trilha para Laguna de los Tres antes de sair de El Chaltén, pois o sinal desaparece poucos minutos após o início da caminhada.

Qual é a diferença entre Laguna de los Tres e Laguna Sucia?

Laguna de los Tres é o ponto final oficial da trilha, aos pés do Fitz Roy. Laguna Sucia é um desvio de cerca de dez minutos a partir dali, conhecida por sua intensa cor turquesa, resultado dos sedimentos glaciais em suspensão que também deram origem ao seu nome.

Depois de um dia como esse, El Chaltén tem seu próprio ritual de encerramento: um churrasco ou um cordeiro patagônico bem preparado e, para a sobremesa, uma parada obrigatória em uma das chocolaterias da cidade.

Uma das melhores vistas é ao amanhecer. Você se anima a conhecê-la?

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