A 30 km de Bariloche, um morro que parece outro planeta. Rochas esculpidas pelo vento, cóndores planando em silêncio e uma família que carrega 150 anos de história na estepe.
La Buitrera: o penhasco lunar onde dormem os cóndores
Uma paisagem que você não esperava encontrar
Ninguém te avisa antes de chegar em La Buitrera. Você deixa para trás os lagos turquesa e as florestas de lengas de Bariloche, segue vinte minutos numa estrada de cascalho, e então a estepe se abre — larga, seca, quase silenciosa. O coirón se estende até onde os olhos alcançam. E aí, surgindo desse vazio sem pedir licença, aparecem as pedras.
São formações de pedra-pomes que o vento e a água esculpiram por milhões de anos — cones, cogumelos, paredões cheios de ocos escuros que parecem olhos entreabertos. O lugar tem algo de outro mundo. Não a grandiosidade clássica dos Andes, mas algo mais estranho e mais íntimo: uma beleza difícil de explicar e impossível de esquecer.
A primeira coisa que você faz ao chegar na Estância La Lucha é cumprimentar a Kela Crespo. Isso não é opcional — é o certo a se fazer. E é também onde a experiência de verdade começa.
Como chegar
La Buitrera fica na zona de Ñirihuau Arriba, entre 20 e 26 km ao sul de Bariloche. De carro, você pega a Rua Esandi no centro da cidade em direção ao sul. Aos 15 km, atravesse uma ponte estreita sobre o rio Ñirihuau, vire à esquerda, passe por uma escola rural e vire à direita. De lá, a estrada de terra te leva até o portão da estância. Baixe o mapa antes de sair — no caminho não tem sinal de celular.
O acesso passa pela propriedade da família Crespo. Na chegada, a Kela anota seus dados, cobra a entrada e explica o percurso e os pontos de referência. Sem aplicativos, sem reservas online — só um aperto de mão e uma conversa. Se quiser avisar com antecedência, o contato é +54 294 4597230 ou a página do Facebook "Caminatas La Lucha – Cerro Las Buitreras".
Sem carro próprio, tem transfer em caminhonete 4×4 saindo de Bariloche. Várias agências locais também oferecem a excursão com guia saindo do centro da cidade.
O percurso
A trilha começa na estância com uma subida suave que engana. Coirón, manchas de ñire e retamo marcam os primeiros passos. Estacas pintadas orientam o caminho, mas o terreno é aberto — vale prestar atenção. A estepe na primavera tem um silêncio espesso que a gente aprende a gostar.
As Pedras Cogumelo
Na metade do caminho, antes de chegar nos paredões principais, aparecem as primeiras formações em forma de cone e cogumelo. São o aperitivo. A erosão do vento durante milhões de anos esculpiu essas figuras com uma precisão que parece intencional. Para aqui um momento antes de continuar subindo. O vale do Ñirihuau já começa a se revelar lá embaixo.
A Caverna da Vida
Não aparece em nenhum mapa oficial. Os visitantes batizaram assim, anos atrás, por causa do formato da principal cavidade — que lembra algo uterino, primordial. Entre os paredões existe um buraco grande que convida a entrar e muda completamente a escala de tudo ao redor. É um desses pontos onde todo mundo fica em silêncio, sem que ninguém precise pedir.
Os Paredões e a Condoreira
É aqui que La Buitrera se define. Os paredões de 100 metros de altura têm dezenas de ocos naturais que servem de dormitório para os cóndores andinos. Nos dias bons — de preferência com vento moderado, de manhã cedo — dá para ver de cinco a quinze cóndores planando nas térmicas bem acima da sua cabeça. Com binóculo, dá para distinguir a carúncula vermelha dos machos adultos. Em dias excepcionais, já foram registrados mais de 100 exemplares nesse paredão de uma só vez.
"Olha em qualquer direção e você vê um quadro. O que me lembro desse dia é uma sensação de alegria pura. Um lugar desse tamanho, dessa magnitude — quase só para mim."
Do cume ou da crista sul, a vista se abre sobre o Lago Nahuel Huapi, o Cerro Blanco, o Ñireco, o Challhuaco. A Patagônia sem o filtro da floresta — crua, imensa, completamente real.
O que ninguém te conta
O morro se chama "La Buitrera" — o pouso dos abutres. Mas nunca houve abutres aqui.
Uma confusão popular de décadas entre o cóndor andino (Vultur gryphus) e o abutre europeu grudou no nome e ficou assim. Os moradores sabem, contam com uma certa ironia, e já fizeram as pazes com isso. A história não para aí: os cóndores não fazem ninho aqui. Seus ninhos de verdade ficam 50 quilômetros adiante, em Mallín Manzano ou nas fendas vulcânicas do Valle Encantado. La Buitrera é só o hotel deles — o pouso entre longas jornadas de voo.
Tem mais uma coisa que ninguém associa a uma trilha de ecoturismo: na década de 1930, petróleo foi descoberto nesse vale do Ñirihuau. Os poços foram abandonados, mas o registro geológico ainda está lá, enterrado sob o coirón.
Quanto à família Crespo — eles não são só "a família da estância". O bisavô da Kela chegou de Carmen de Patagones numa carroça puxada por bois. O avô nasceu no meio da viagem, no planalto de Somuncurá. E Benito Crespo, descendente direto, se tornou o primeiro intendente da história de Bariloche. Tem uma rua na cidade com o nome dele. La Buitrera tem, literalmente, história de fundadores.
Informações práticas
| Item | Detalhe | |---|---| | Distância | 9,5 – 10 km ida e volta | | Ganho de altitude | +600 m | | Duração total | 4 a 5,5 horas (depende do ritmo) | | Dificuldade | Moderada | | Melhor época | Setembro a maio (melhor: out, nov, mar, abr) | | Idade mínima | 7 anos | | O que levar | Água (mín. 1,5 L), lanches, protetor solar, boné, roupas em camadas, tênis ou bota de trilha | | Não levar | Drone (perturba os cóndores) | | Sinal de celular | Sem sinal no percurso |
Como organizar
Por conta própria: Vá de carro, baixe o mapa com antecedência, avise a Kela antes, pague a entrada na estância (aprox. ARS 5.000–8.000 por pessoa — confirmar com a família). Guia não é obrigatório, mas o terreno aberto exige atenção.
Com transfer: Tem caminhonete 4×4 privada saindo de Bariloche. Contato: Ciriaco, +2944714027.
Com excursão organizada: Várias agências do centro de Bariloche oferecem o pacote completo — transporte, guia certificado em montanhismo e cobertura médica. As saídas costumam ser de manhã, de novembro a abril, com duração total de 5 a 6 horas.
Horário ideal: Sair de Bariloche antes das 8h para aproveitar a luz da manhã nas formações rochosas e evitar o calor do meio-dia na estepe exposta.
Na volta, a Kela te espera na estância com tortas fritas quentinhas e chimarrão. Isso não é slogan — é o que acontece. É o final que essa trilha merece.
La Buitrera não é a mais longa nem a mais alta da região. Mas tem algo que poucos lugares têm: a sensação de ter estado em algum lugar que ainda não foi completamente descoberto. Se o vento ajudar e os cóndores estiverem nas térmicas sobre os paredões, não é preciso acrescentar mais nada. O lugar fala por si.
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