Dois destinos e uma jornada diferente de qualquer outro dia na Patagônia. O Nahuel Huapi guarda segredos e uma floresta mágica.
O lago como limiar
Há algo que acontece quando o catamarã abandona o cais de Puerto Pañuelo e o perfil de Bariloche começa a ficar para trás. O vento cai dez graus de repente. O azul da água, esse azul glaciar, envolve a embarcação por todos os lados, e os Andes aparecem no horizonte como se alguém os tivesse desenhado naquela mesma manhã. Você ainda não chegou a lugar nenhum, e já está em outro lugar.
A excursão à Ilha Victoria e à Floresta de Arrayanes é um percurso de pouco mais de seis horas onde convivem dois ecossistemas únicos no mundo, séculos de história humana enterrada sob a terra vulcânica, uma mitologia mapuche que explica por que certas árvores têm a casca sempre fria, e uma ilha que literalmente perdeu uma letra no caminho e assim ganhou nome de mulher.
Ponto de partida: Puerto Pañuelo
Tudo começa em Puerto Pañuelo, na Península Llao Llao, a 25 quilômetros do centro de Bariloche. A maioria dos pacotes de excursão inclui traslado do centro da cidade (~30 min, ~25 km). O catamarã vai primeiro à Floresta de Arrayanes, depois à Ilha Victoria — ou o inverso, dependendo da operadora e do horário. A ordem pode variar, mas a experiência em cada lugar é suficientemente diferente para que nenhum ofusque o outro.
A Floresta de Arrayanes: o quetri e sua casca fria
Quando o catamarã amarra na Península de Quetrihué e o guia indica o início da trilha de tábuas, encontramos o arrayán — ou quetri, como os mapuches o chamam — com uma casca de cor canela intensa, quase açafrão, que muda de tom com a umidade e a luz. É fria ao toque. Inesperadamente fria, como se guardasse algo dentro.
Os exemplares desta floresta têm entre quatrocentos e seiscentos anos, e o que os torna únicos no mundo não é só a idade: em todos os outros lugares do planeta, o quetri cresce como arbusto. Apenas aqui, nesta pequena península de mil hectares à beira do Nahuel Huapi, ele atinge porte arbóreo. Só aqui forma uma floresta.
O nome do lugar, Quetrihué, diz tudo: quetri (arrayán) + hué (lugar). "Lugar onde há arrayán". Os mapuches já sabiam o que havia de especial nesta terra muito antes de qualquer explorador chegar.
A lenda mapuche conta que uma jovem chamada Maivé se apaixonou pelo quetri ao vê-lo pela primeira vez. Seu amor foi tão profundo que ficou encantada na floresta para sempre. Dizem que por isso a casca está sempre fria: guarda esse amor sem nunca se derreter.
No extremo da trilha há uma pequena casa histórica de madeira onde funciona uma confeitaria. Perfeita para um chocolate quente antes de voltar ao cais.
Ilha Victoria: a ilha que perdeu uma letra
A embarcação continua em direção à Ilha Victoria, a maior do lago Nahuel Huapi, com 3.700 hectares de florestas, trilhas e costas rochosas. O desembarque é em Puerto Anchorena. Poucos visitantes sabem que esta ilha nem sempre teve esse nome. Seu nome original era Nahuel Huapi — "ilha do jaguar", na língua tehuelche-araucana, onde nahuel significa jaguar ou puma e huapi significa ilha. Quando os cartógrafos militares do general Roca chegaram para traçar os mapas oficiais, rebatizaram-na em homenagem a Benjamín Victorica. Com "c". Com o tempo, o uso cotidiano foi consumindo essa consoante, e o lago ficou com o nome. Victoria.
A partir de Puerto Anchorena, as trilhas demarcadas levam em quinze minutos à Playa del Toro, uma praia de areia vulcânica negra onde se conservam pinturas rupestres dos povos originários que habitaram a região há aproximadamente setecentos anos.
O viveiro que moldou a Patagônia
Mais adentro da ilha, as trilhas levam ao ex-Vivero Nacional, hoje Jardim Botânico Ilha Victoria. O que parece um passeio por uma floresta mista é na verdade um dos arquivos botânicos mais extraordinários da América do Sul: o viveiro abriga 140 espécies de todos os continentes e foi reconhecido como de valor internacional pela Botanical Gardens Conservation International (BGCI).
Nos anos quarenta, num pequeno edifício de madeira nessas mesmas florestas, nasceu a primeira Escola de Guardas-Parques da Argentina. Jovens de todas as províncias vinham se formar neste canto do lago.
O monstro que habita as águas
O lago tem seu próprio ser mitológico: El Nahuelito. Uma história que começa com avistamentos de uma criatura de cinco a sete metros de comprimento. Navegar o Nahuel Huapi sabendo de tudo isso é procurá-lo nas águas, esperando descobri-lo.
Informações práticas
Distância navegada: ~22 km de Puerto Pañuelo (ida e volta) Caminhada na ilha/floresta: 2–4 km dependendo das trilhas escolhidas Desnível: Mínimo (trilhas planas) Duração total: 6–7 horas Dificuldade: Baixa — apto para todos Temporada: O ano todo. Outono (mar–mai) recomendado para menos gente e melhor luz Idade mínima: Sem restrição. Apto com bebês e crianças pequenas O que levar: Corta-vento, calçado confortável, agasalho (o lago esfria), água, lanche. Roupa impermeável no inverno Proibido: Raspar ou danificar a casca dos arrayanes
Como organizar
De Bariloche: As empresas Turisur e Cau Cau operam saídas diárias de Puerto Pañuelo. A maioria dos pacotes inclui traslado do centro de Bariloche (~30 min, ~25 km). Se você tiver carro próprio, pode ir diretamente a Puerto Pañuelo e comprar a passagem no cais, o que reduz o custo por pessoa.
De Villa La Angostura: A opção menos masificada e, para quem já conhece a Patagônia, a mais recomendável. Do cais de Puerto Angostura você pode fazer a excursão lacustre até a floresta em cerca de 4 horas com muito menos gente. Também é possível chegar a pé ou de bicicleta pela trilha de 12 km que percorre a Península de Quetrihué (entrada antes do meio-dia obrigatória).
Guias: Os guias do Parque Nacional acompanham a excursão e fornecem informações reais sobre flora, fauna e história. Não é uma visita autoguiada.
Hospedagem na ilha: A Hostería Nacional Isla Victoria é a única acomodação dentro da ilha — reinaugurada em 2002, tem história própria. Os hóspedes acessam o lago antes e depois do fluxo turístico intenso. Uma experiência completamente diferente da excursão de dia.
Gastronomia
Na Floresta de Arrayanes funciona uma pequena confeitaria na casita histórica de madeira no extremo da trilha — o lugar ideal para um chocolate quente antes de voltar ao barco. Os preços dizem não ser tão acessíveis. A Hostería Isla Victoria tem restaurante com almoço e vistas diretas para o lago. A truta fresca do Nahuel Huapi é o prato que faz sentido pedir ali e em nenhum outro lugar; reserva-se por excursões privadas ou ao se hospedar na pousada.
Em alta temporada: Em janeiro e fevereiro, a excursão pode demorar até uma hora a mais do previsto. Não recomendável se você tiver voo naquela tarde.
Há algo na volta ao cais, com o sol já se pondo sobre os Andes e a água tomando aquela cor cinza-chumbo que o Nahuel Huapi assume ao entardecer, que faz a gente ficar um pouco mais de pé no convés. Não há nada a fazer ali. Só se perder nas maravilhas da Patagônia.
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